Corumbella
(Corumbella werneri)
Paleoartes:
- AVPHAnimação
Introdução
O Corumbella (Corumbella werneri) é um fóssil tubular do Ediacarano terminal, pertencente ao Grupo Corumbá, no estado de Mato Grosso do Sul, Brasil, com idade entre aproximadamente 555 e 538 milhões de anos. Trata-se do fóssil macroscópico de corpo mais abundante na Formação Tamengo e um dos animais esqueléticos mais antigos já registrados pela paleontologia. A espécie ocupa um lugar de destaque na história da vida na Terra por representar uma das primeiras evidências de biomineralização animal, processo pelo qual organismos produzem estruturas duras para proteger e sustentar seus corpos, capacidade que antecedeu e preparou o terreno para a explosão de formas esqueléticas que caracterizaria o Cambriano. A identidade taxonômica de C. werneri foi objeto de intenso debate por décadas, com interpretações que a colocaram ora entre os cnidários, ora entre os bilaterais, tendo sido revisada de forma significativa por um estudo publicado em 2025 na revista Royal Society Open Science, usando imageamento por síncrotron e aprendizado de máquina.
Etimologia
O nome do gênero Corumbella é um diminutivo derivado do nome da cidade de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, Brasil, onde os primeiros fósseis foram coletados, com o sufixo latino -ella indicando diminuição ou delicadeza. O nome pode ser traduzido livremente como "a pequena bela ou graciosa de Corumbá". O epíteto específico werneri é uma homenagem ao geólogo alemão Detlef Hans Gert Walde, pesquisador que contribuiu de forma significativa para o estudo dos depósitos sedimentares ediacaranos da Bacia do Corumbá e da região do Cinturão Paraguai. O nome completo da espécie pode ser traduzido como "a pequena de Corumbá de Werner".
Descrição
Corumbella werneri era um organismo tubular de pequeno porte, com comprimento estimado de até 10 centímetros nos maiores espécimes brasileiros, o dobro do tamanho dos espécimes da mesma espécie posteriormente encontrados no norte do Paraguai. A largura dos tubos era de 4 a 6 milímetros e o peso estimado em 1 a 3 gramas. A carapaça era resistente mas flexível, com paredes compostas por uma única camada de elementos em forma de anéis.
Um estudo publicado em maio de 2025 na Royal Society Open Science, por Becker-Kerber e colaboradores, analisou novos espécimes de C. werneri preservados na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) por meio de imageamento de síncrotron no acelerador Sirius, em Campinas, combinado com aprendizado de máquina. Os resultados revelaram que os tubos de Corumbella eram originalmente cônicos-cilíndricos, contrariando as reconstruções anteriores que os descreviam como tendo seção quadrangular. O estudo demonstrou que o contorno quadrado e as características da linha mediana que figuravam nas reconstruções anteriores eram artefatos tafonômicos resultantes da compressão e achatamento dos tubos após a morte do organismo, e não características morfológicas reais. A parede do tubo era composta por uma única camada de elementos em forma de anel, sem a estrutura de quatro septos internos que havia sido proposta nas descrições originais com base nos espécimes achatados.
Em relação ao modo de vida, C. werneri vivia com a extremidade apical fixada no sedimento lamoso do fundo marinho, de forma semelhante ao que se observa em outros organismos tubulares ediacaranos como Conotubus. Essa postura verticalmente orientada, com a porção oral voltada para cima em direção à coluna d'água, ocupava um nível de estratificação vertical (tiering) consideravelmente mais alto do que o ocupado por Cloudina, com quem coexistia no mesmo ecossistema. O organismo era bentônico e séssil, sem capacidade de locomoção ativa, e provavelmente se alimentava por filtração de partículas orgânicas suspensas na água, estratégia comum entre organismos tubulares sésseis de ambientes marinhos rasos.
O ambiente em que C. werneri viveu era uma rampa carbonática rasa e quente, aberta para o Oceano Clymene, o mar que banhava o sudoeste do Gondwana no Ediacarano terminal. O clima era tropical a subtropical, com deposição de carbonatos, margas e folhelhos em condições de águas relativamente calmas e bem oxigenadas na zona fótica. A Formação Tamengo preserva um registro rico e diversificado, incluindo acritarcos, vendotaenídeos, o fóssil de corpo mole Corumbella, os fósseis esqueléticos Cloudina e Titanotheca, e icnofósseis variados, pintando o quadro de um ecossistema marinho bentônico relativamente diversificado às vésperas da Explosão Cambriana.
Descoberta
Os primeiros fósseis de Corumbella werneri foram coletados em margas e folhelhos da pedreira Saladeiro, localizada em Ladário, cidade adjacente a Corumbá, no Mato Grosso do Sul. A espécie foi formalmente descrita em 1982 por Hahn, Hahn, Leonardo, Pflug e Walde, sendo originalmente atribuída a uma nova subclasse, a Corumbellata, e inserida entre os Cnidaria Scyphozoa. Os autores reconheceram duas regiões corporais distintas no organismo: uma região proximal composta por anéis tubulares não ramificados com quatro septos internos, e uma região distal com arranjo biserrado de polipares contíguos. A interpretação de simetria radial quádrupla interna levou os autores a comparar o organismo com o escifozoário vivente Stephanoscyphistoma, reforçando a afinidade com os Scyphozoa.
Em 2005, Babcock e colaboradores publicaram na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology uma revisão da morfologia e das afinidades filogenéticas de C. werneri com base em novo material de Mato Grosso do Sul, reinterpretando a espécie como um organismo colonial séssil relacionado aos conulariídeos, e apontando a ocorrência de formas similares nos Estados Unidos como suporte para a correlação da Formação Tamengo com a biota ediacarana global. Em 2011, Pacheco e colaboradores realizaram análise tafonômica e modelagem geométrica detalhada dos espécimes brasileiros e paraguaios. Em 2015, um estudo publicado na PLOS ONE por Pacheco e colaboradores, utilizando microtomografia computadorizada por raios X (micro-CT) e microscopia eletrônica de varredura (MEV), confirmou que espécimes articulados e desarticulados do Brasil, Paraguai e Estados Unidos representam o mesmo táxon, reforçando a hipótese de afinidade com cnidários coronados.
Em 2019, Walde e colaboradores revisaram a tafonômia da espécie com base em novo material tridimensionalmente preservado da Pedreira Corcal, em Corumbá, propondo afinidade com os sinotubulitídeos tubulares em vez de com cnidários ou conulariídeos. A revisão mais recente e tecnicamente mais sofisticada foi publicada em maio de 2025 na Royal Society Open Science por Becker-Kerber e colaboradores, usando síncrotron e aprendizado de máquina, concluindo que os tubos eram cônicos-cilíndricos, que as características quadrangulares eram artefatos tafonômicos, e que a afinidade cnidária proposta originalmente não se sustenta com os dados morfológicos revisados.
Classificação
A posição taxonômica de Corumbella werneri foi e continua sendo um dos problemas mais debatidos da paleontologia do Ediacarano. A descrição original de 1982 a classificou entre os Cnidaria Scyphozoa, na nova subclasse Corumbellata. Estudos subsequentes a aproximaram ora dos conulariídeos (dentro dos Cnidaria), ora dos sinotubulitídeos (um grupo tubular de afinidades incertas), ora dos bilaterais com escleritoma. O estudo de 2025 de Becker-Kerber e colaboradores concluiu que a morfologia original de Corumbella é mais compatível com outros fósseis tubulares do Ediacarano terminal, como Costatubus, Hyolithellus e Byronia, do que com cnidários, e que nenhum descendente identificável foi encontrado até o momento, tornando a posição filogenética do gênero ainda não resolvida.
A classificação mais amplamente aceita até a revisão de 2025 era: Reino Animalia, Filo Cnidaria, Classe Scyphozoa, Subclasse Corumbellata, Ordem Corumbellida, Família Corumbellidae, Gênero Corumbella, Espécie Corumbella werneri. Com as conclusões de 2025, a posição nos Cnidaria deixou de ser sustentada pelos dados morfológicos disponíveis, e a espécie deve ser tratada, por ora, como um metazoo de afinidade incerta dentro dos organismos tubulares ediacaranos biomineralizados. O gênero Corumbella é atualmente monoespecífico, com C. werneri sendo sua única espécie formalmente descrita. Os organismos tubulares esqueléticos mais próximos em termos morfológicos e temporais incluem Cloudina riemkeae e Cloudina hartmanae, ambos co-ocorrentes na Formação Tamengo, além de Sinotubulites, do Ediacarano da China.
Dados do Cnidário:
- Nome: Corumbella
- Nome Científico: Corumbella werneri
- Época: Ediacarano
- Local onde viveu: Brasil
- Peso: Cerca de 3 gramas
- Tamanho: 10 centímetros de altura e 6 milímetros de largura
- Alimentação: Suspensívoro
Classificação Científica:
- Reino: Animalia
- Filo: Cnidaria
- Classe: Scyphozoa
- Família: †Corumbellidae
- Gênero: †Corumbella
- Espécie: †Corumbella werneri Hahn et al., 1982.
Referências:
- - BABCOCK, L. E. et al. Corumbella, an Ediacaran-grade organism from the Late Neoproterozoic of Brazil. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, v. 220, n. 1-2, p. 7-18, 2005. DOI: 10.1016/j.palaeo.2004.01.001.
- - BECKER-KERBER, B. et al. Rebuilding Earth's first skeletal animals: the original morphology of Corumbella (Ediacaran, Brazil). Royal Society Open Science, v. 12, n. 5, 250206, 2025. DOI: 10.1098/rsos.250206.
- - HAHN, G.; HAHN, R.; LEONARDO, O.; PFLUG, H. D.; WALDE, D. H.-G. Körperlich erhaltene Scyphozoen-Reste aus dem Jungpräkambrium Brasiliens. Geologica et Palaeontologica, v. 16, p. 1-18, 1982.
- - PACHECO, M. L. A. F. et al. Taphonomic analysis and geometric modeling for the reconstitution of the Ediacaran metazoan Corumbella werneri (Hahn et al., 1982), Tamengo Formation, Corumbá Basin, Brasil. Journal of South American Earth Sciences, v. 32, n. 4, p. 431-443, 2011. DOI: 10.1016/j.jsames.2011.04.009.
- - PACHECO, M. L. A. F. et al. Insights into the skeletonization, lifestyle, and affinity of the unusual Ediacaran fossil Corumbella. PLOS ONE, v. 10, n. 3, e0114219, 2015. DOI: 10.1371/journal.pone.0114219.
- - SIMÕES, M. G. et al. A new conulariid (Cnidaria, Scyphozoa) from the terminal Ediacaran of Brazil. Papers in Palaeontology, v. 7, n. 1, p. 527-540, 2021. DOI: 10.1002/spp2.1293.
- - WALDE, D. H.-G. et al. Taphonomy of Corumbella werneri from the Ediacaran of Brazil: sinotubulitid tube or conulariid test? Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, v. 43, n. 3, p. 335-350, 2019. DOI: 10.1080/03115518.2019.1615551.
- - WARREN, L. V. et al. The dawn of animal skeletogenesis: ultrastructural analysis of the Ediacaran metazoan Corumbella werneri. Gondwana Research, v. 23, n. 2, p. 702-714, 2013. DOI: 10.1016/j.gr.2012.05.003.



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